Alimentação saudável é coisa de criança

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Alimentação complementar deve ser introduzida quando a criança completar seis meses (Foto: Getty Images)

Assuntos sobre filhos? Teremos sempre por aqui. Depois do nascimento da minha Cecília estou a todo momento “maternando” e em busca de informações que me auxiliem nessa jornada muito cansativa, mas extremamente prazerosa.

Para começar, vamos falar da alimentação das crianças.  Amamentar até que idade? Quando começar a dar alimentos? Que alimentos posso oferecer ao bebê? Essas são algumas das inúmeras dúvidas que surgiram na minha cabeça e de outras milhares de pessoas que passaram a conviver com um novo integrante na família.

Nova integrante lá de casa no início da Introdução Alimentar. (Foto: Arquivo pessoal)

Em 2002 foi criado o Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois anos e, neste ano, o documento será atualizado. De acordo com o Ministério da Saúde, os dois primeiros anos de vida são decisivos para o crescimento e o desenvolvimento adequado da criança e também para a formação de hábitos saudáveis.

Nutricionista Ariane Aguiar Cronemberger (Foto: Arquivo Pessoal)

Para esclarecer outras questões, conversei com a nutricionista Ariane Aguiar Cronemberger. Em uma entrevista bem detalhada, ela explica como deve ser a alimentação das crianças para que elas cresçam com saúde.

1- O LEITE MATERNO É CONSIDERADO O ALIMENTO MAIS IMPORTANTE E COMPLETO PARA O DESENVOLVIMENTO SAUDÁVEL DE UMA CRIANÇA. ATÉ QUAL IDADE É RECOMENDADO O ALEITAMENTO?

A alimentação e nutrição adequadas são requisitos essenciais para o crescimento e desenvolvimento de todas as crianças brasileiras. Mais do que isso, são direitos humanos fundamentais, pois representam a base da própria vida.

São inúmeras as vantagens da amamentação, especialmente nos primeiros meses de vida. Em primeiro lugar, ela garante, em muitos casos, a sobrevivência das crianças, e, particularmente, daquelas em condições desfavoráveis e/ou que nascem com baixo peso. Quanto mais a criança mamar no peito, mais protegida estará. A OMS recomenda que a amamentação seja praticada até os dois anos ou mais.

O leite materno pode ser uma importante fonte de nutrientes após o primeiro ano de vida da criança e continua sendo uma importante fonte de gordura, vitamina A, cálcio e riboflavina no segundo ano de vida.

2- ÁGUA E CHÁ ANTES DOS SEIS MESES. POR QUE NÃO?

Por ser um alimento completo o leite materno fornece inclusive água, além de possuir fatores de proteção contra infecções comuns da infância, é isento de contaminação e perfeitamente adaptado ao metabolismo da criança. Sob o ponto de vista nutricional, a complementação precoce é desvantajosa para a nutrição da criança, além de reduzir a duração do aleitamento materno e prejudicar a absorção de nutrientes importantes existentes no leite materno, como o ferro e o zinco.

O ferro existente no leite materno é o melhor aproveitado e a sua absorção é influenciada pela presença de outros alimentos. Os polifenóis são substâncias químicas presentes nas plantas, elas são resultantes dos processos metabólicos pelos quais as plantas passam, geralmente para criar defesas contra a radiação ultravioleta ou agressão por predadores, estas substâncias estão presentes nos chás e atrapalham a absorção do ferro.

Já foi demonstrado que a complementação do leite materno com água ou chás nos primeiros seis meses de vida é desnecessária, inclusive em dias secos e quentes. O efeito protetor do leite materno contra diarreias pode diminuir consideravelmente quando a criança recebe qualquer outro alimento, incluindo água ou chá.

Outro fator que deve ser considerado na amamentação não exclusiva é o uso de mamadeiras para ofertar líquidos à criança. Essa prática pode ser prejudicial, uma vez que a mamadeira é uma importante fonte de contaminação, além de interferir na amamentação sob livre demanda, alterar a dinâmica oral e retardar o estabelecimento da lactação. A técnica de sucção da mama e da mamadeira são distintas, os movimentos da boca e da língua necessários para a sucção da mama são diferentes daqueles utilizados para sugar a mamadeira, confundindo o bebê.

3- SUCO ANTES DE 1 ANO. PODE?

Não, mesmo se preparado naturalmente. O suco não é considerado saudável por não ser equivalente ao consumo da fruta integral.

A fruta in natura possui mais nutrientes e mais fibras do que seu suco. As fibras ajudam a aumentar a sensação de saciedade e quando os sucos são preparados perdem-se as fibras.

A fruta in natura contém menos açucares do que seu suco. Para preparar um copo de suco é usada mais de uma unidade de fruta, concentrando o açúcar das frutas (frutose) e, muitas vezes, é acrescentado açúcar refinado o que potencializa os malefícios.

4- QUANDO COMEÇAR A OFERECER OUTROS ALIMENTOS. QUAIS?

A OMS recomenda que os alimentos complementares sejam oferecidos a partir dos seis meses de idade. Casos especiais poderão requerer a introdução de alimentos complementares antes do sexto mês devendo cada caso ser analisado avaliado individualmente pelo profissional de saúde.

Após os seis meses, além do leite materno, devem ser introduzidos, aos poucos, outros alimentos em três refeições ao dia (fruta no meio da manhã, almoço e novamente fruta no meio da tarde).

O melhor é iniciar com as frutas amassadas com o garfo ou raspadas e oferecidas na colher, e na medida em que a criança for aceitando, oferecer as frutas em pedaços e inteiras.

O almoço deve ser preparado com legumes e/ou verduras, juntamente com cereais ou tubérculos (exemplos: arroz, batatas, macarrão), carnes ou ovo e feijão amassados no garfo. Os alimentos devem ser colocados separadamente no prato para que a criança possa reconhecê-los. Só após o primeiro mês de introdução alimentar a criança deve receber o jantar.

Os alimentos devem ser preparados especialmente para a criança, bem cozidos, com pouca água até ficarem macios, e deverão ser amassados com o garfo. As carnes devem ser desfiadas e separadas em porções no prato para que a criança possa reconhecê-las. O liquidificador e a peneira não devem ser usados.

Dos 12 até os 24 meses, a criança deve continuar sendo amamentada e receber três refeições principais (café da manhã, almoço e jantar) e dois lanches (fruta). Nessa fase, ela já pode receber a alimentação básica da família exceto os alimentos industrializados, gordurosos e com excesso de sal.

Procure oferecer os alimentos de maneira regular, mas sem rigidez de horários, em intervalos de duas a três horas entre as refeições, para que a criança sinta vontade de se alimentar. No início, alguns alimentos podem ser rejeitados, porque tudo é novidade (a colher, o sabor e a consistência do alimento). Há crianças que se adaptam facilmente enquanto outras precisam de mais tempo. Nos primeiros dias, a mãe pode amamentar ao perceber que a criança ainda está com fome, caso não aceite bem os alimentos novos.

5- SAL E OUTROS TEMPEROS PODEM SER ADICIONADOS NA PREPARAÇÃO DOS ALIMENTOS?

No preparo do almoço e jantar devem ser usados temperos frescos como cebola, alho, salsa, cebolinha e pouco sal. No caso de preparar os alimentos ensopados e refogados, os óleos vegetais podem ser utilizados, de preferência o azeite de oliva extra virgem. Não devem ser usados temperos e alimentos industrializados, apimentados, muito gordurosos, como bacon e os embutidos (linguiças, salsicha e presunto). Também não devem ser adicionados açúcar, mel, farinhas ou geleias nas frutas, e nem oferecidos balas, gelatinas, chocolates, refrigerantes, biscoitos salgados ou recheados.

No Guia Alimentar Para Crianças Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, no passo 8 afirma que deve usar sal com moderação.

Há alguns anos a recomendação do almoço era papa de verduras e nestas não deveria ser acrescentado o sal, para que a criança sentisse o sabor de cada ingrediente, porém as papas eram misturas de duas ou três verduras passadas na peneira ou até mesmo liquidificadas.

Atualmente na introdução alimentar é recomendado que desde o início sejam inseridas as carnes no almoço, por serem alimentos ricos em ferro e vitaminas do complexo B.

6- CRIANÇAS PODEM CONSUMIR AÇÚCAR? QUANDO LIBERADO, COMO DEVE SER O CONSUMO?

O açúcar somente deve ser usado na alimentação da criança após um ano de idade. Açúcar, sal e frituras devem ser consumidos com moderação, pois o seu excesso pode trazer problemas de saúde no futuro.

A Pirâmide Alimentar Infantil proposta no Guia Alimentar para Crianças Menores de 2 Anos  está composta por oito grupos de alimentos, distribuídos em quatro níveis, apresentados da base ao topo da pirâmide, considerando a sua participação na dieta em quantidades respectivamente maiores ou menores de porções.

Os grupos estabelecidos para o Guia Alimentar Infantil na Pirâmide foram os seguintes, da base para o topo:

Nível 1 – Grupo 1 – cereais, pães e tubérculos (de três a cinco porções);

Nível 2 – Grupo 2 – verduras e legumes (três porções); Grupo 3 – frutas (de três a quatro porções);

Nível 3 – Grupo 4 – leites, queijos e iogurtes (três porções); Grupo 5 – carnes e ovos (duas porções); Grupo 6 – feijões (uma porção);

Nível 4 – Grupo 7 – óleos e gorduras (duas porções); Grupo 8 – açúcares e doces (uma porção)

7- MUITOS PAIS SÃO CRITICADOS POR AMIGOS E FAMILIARES POR NÃO OFERECEREM “BESTEIRAS” (achocolatados, sucos adoçados, doces, biscoitos, iogurtes, sorvetes, bolos, refrigerantes, salgadinhos, etc) AOS SEUS FILHOS . QUAIS OS RISCOS DO CONSUMO DESTES ALIMENTOS?

Os alimentos citados acima são ricos em açúcares, sódio, aditivos, gorduras saturadas e gorduras trans e o consumo destas substâncias está diretamente relacionado ao desenvolvimento de muitas doenças como obesidade, diabetes, hipertensão arterial, trigliceridemia, alergias, câncer, etc.

8- COMO OS HÁBITOS ALIMENTARES DOS PAIS PODEM INTERFERIR NA SAÚDE E QUALIDADE DE VIDA DOS FILHOS?

Diferente dos adultos, que realizam suas escolhas alimentares, as crianças menores de cinco anos dependem dos seus pais para o consumo de alimentos. É na infância que ocorre a introdução de alimentos e a formação do paladar e, por isso, constitui um período determinante na formação dos hábitos alimentares. Nessa fase podem ser definidos os padrões alimentares que estarão presentes nas outras etapas da vida da criança.

Os pais possuem importante papel na formação do hábito alimentar infantil. As preferências alimentares são originadas por combinação de fatores genéticos e ambientais. O estabelecimento de hábitos alimentares saudáveis deve ser estimulado. As escolhas alimentares dos pais em relação à quantidade e qualidade dos alimentos podem determinar o comportamento alimentar das crianças. A melhor forma de ensinar as crianças a comerem alimentos saudáveis é dando o exemplo.

9- QUAIS ALIMENTOS SÃO IMPRESCINDÍVEIS PARA O DESENVOLVIMENTO SAUDÁVEL DE UMA CRIANÇA? E QUAIS DEVEM SER EVITADOS NOS PRIMEIROS ANOS DE VIDA?

A alimentação saudável é essencial para o crescimento, desenvolvimento e manutenção da saúde. A alimentação deve ser a mais variada possível para que o organismo receba todos os macro e micronutrientes.

Os hábitos alimentares inadequados acarretam problemas de saúde imediatos e também a longo prazo. Alimentos com alta densidade calórica, alto teor de sódio, pobre em fibras, alto teor de açúcar devem ser evitados, principalmente na primeira infância.

10- O QUE É BLW (BABY LED WEANING OU DESMAME GUIADO PELO BEBÊ)? VOCÊ RECOMENDA A UTILIZAÇÃO DESSA PRÁTICA?

BLW é uma abordagem de introdução alimentar que engloba oferecer alimentos saudáveis, compartilhando as refeições da família, certificando-se de que apenas o bebê coloque comida em sua própria boca. Os cuidadores atuam na alimentação em caráter intermediário pelo fato de disponibilizarem alimentos e proporcionarem um ambiente agradável para que os bebês possam exercitar as habilidades motoras e, assim, conhecerem os mais variados alimentos, percebendo o ato de comer em toda a sua essência.  

Entre as orientações básicas do BLW estão: oferecer os alimentos preferencialmente in natura em vez de preparar papinhas, oferecer alimentos variados, sempre colocar a criança sentada e interagir com ela na hora das refeições.

Recomendo aos pais que escolherem este método de introdução alimentar avalie se seu filho possui os requisitos para se enquadrar nesta metodologia, estude as formas de apresentação dos alimentos e esteja seguro para encarar os desafios e obstáculos que surgirão.

11- QUAL A IMPORTÂNCIA DE UMA ROTINA ALIMENTAR?

Uma rotina serve para orientar ações e permitir uma pessoa situar-se no tempo e no espaço. A alimentação complementar deverá ser oferecida sem rigidez de horários, respeitando-se sempre a vontade da criança, porém uma rotina alimentar deve ser estabelecida para que a criança crie o hábito de se alimentar em intervalos regulares.

Fontes:

Sociedade Brasileira de Pediatria. http://www.sbp.com.br/

Ministério da Saúde, 2005. Guia Alimentar para Crianças Menores de 2 Anos.

Ministério da Saúde, 2009. Saúde da Criança: Nutrição Infantil. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/saude_crianca_nutricao_aleitamento_alimentacao.pdf

CONALCO 2017. Guia Prático para Iniciar o Baby-led Weaning. https://conalco.com.br/wp-content/uploads/2017/03/Guia-Pr%C3%A1tico-BLW-4.pdf

Pereira, A. C. S.; Moura, S. M.; Constant, P. B. L. 2008. Alergia alimentar: sistema imunológico e principais alimentos envolvidos. www.uel.br/revistas/uel/index.php/seminabio/article/download/3466/2821

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