“O meu delírio é a experiência com as coisas reais.”

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Estava aqui sozinha em meu setor, porque todos entraram de recesso e eu não. Aí, eu desci dessa solidão, e comecei a espalhar coisas nessa folha de word (o trocadilho foi bom, confessa). Ao fundo, não tocava Zé Ramalho como no trocadilho, mas Belchior. A música Alucinação começou e eu fiquei impressionada com a parte que diz: “A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais….”

Apesar de já ter escutado essa música inúmeras vezes, dessa vez, talvez pelo silêncio do ambiente, me tocou mais. Eu fiquei pensando como coisas reais estão difíceis. A moda é viver o surreal, o irreal, o virtual. O real está sendo esquecido, talvez de uma forma rápida demais. Pelo menos para mim, rápido demais. Acredito que, por isso, Bel (Belchior para vocês) coloca que a maior alucinação é suportar o dia a dia que vem se tornando pesado demais. Demais.

Mais cedo, conversava com minha amiga, Jock, sobre como está difícil ser real, porque as pessoas não estão interessadas no que você é de fato, no que você está vivendo de fato, no que se passa. Elas querem respostas prontas. Elas querem ouvir um “Tudo bem”, depois da pergunta: “Como você está?”

A questão é que esse ambiente improvisado e falso, me angustia. Não me adapto. Não por ser melhor ou a mais real de todas as pessoas do mundo. Mas porque não consigo achar normal essa superficialidade.

E não tem como falar dessa liquidez sem falar de Zygmunt Bauman, que sempre coloca que “Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar”. E é doloroso pensar que essa sociedade liquida está tomando conta de tudo, onde só tem relevância o temporário. Só é valorizado aquilo que corresponde as minhas expectativas. Fugiu disso? Corta!

É complicado, na verdade, pensar sobre isso porque estamos envolvidos de tal forma que não conseguimos, talvez, separar o real do irreal, do inventado, daquilo que foi construído para determinada situação. É aí que o real se torna o irreal e vice-versa.

Diante de tantas palavras, talvez sem sentido para você, o que eu quero realmente passar, nesse texto, é que precisamos valorizar o real. Porque viver para corresponder expectativas, idealizações, é uma forma de não viver. Quantos de nós não estamos vivendo REALmente!

Uma vez conversei com uma amiga que disse que uma das amigas dela estava mostrando fotos de uma viagem que fez para Londres. O curioso foi que a amiga respondeu que não lembrava de muita coisa que tinha acontecido, só através das fotos. Porque ela não viveu a viagem, ela apenas passou por ela.

Você nota como isso é perigoso?

Por isso, já que estamos envolvidos com esse clima de fim de ano, metas e promessas, quero convidar você a tentar fazer de 2019 um ano de verdade. Não apenas passar por ele, mas vivê-lo a ponto de você saber exatamente o que está fazendo e o porquê de estar fazendo.

A gente vive repetindo que precisamos melhorar, mas será que realmente sabemos em quê? Em quê precisamos ser melhores? Pergunto não com base na expectativa alheia, mas o que VOCÊ REALMENTE ACHA QUE PRECISA MELHORAR? O que pode te tornar mais humano, literalmente?

Que esse ano que já já começa seja um período de vida. Vivências. Experiências. Mais vento no rosto. Mais sol na cara. Mais suor. Menos telas, mais pele, olho no olho e toques reais.

Não vamos deixar que a realidade fuja por nossos dedos.

Deixo, para você, a música que inspirou todas essas palavras talvez desencontradas. E que sempre, sempre o seu delírio seja a experiência com coisas reais. Afinal, acima de todas as expectativas, telas e conceitos elaborados, amar e mudar as coisas devem nos interessar mais.

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